A fenomenologia dos gestos carnais III

O abraço e o beijo

O abraço é marcado pelo desejo; desejo de acolher o outro. Abre-se os braços para acolher a presença, o dom, do outro que se entrega. Aquele que se deixa abraçar se dá, e aquele que abraça, fecha os braços para acolher o outro junto a si, fechando-se com o outro na intimidade.
A ambivalência do abraço, pela dimensão sensual, pode acontecer na captura do outro (detendo, retendo).


O beijo revela o desejo de dar e receber a vida pela significação da boca. Porque a boca é o lugar pelo qual vem a vida pelo alimento e pelo ar. A boca é o desejo do psiquismo (alma, animação, vida, vital).
A ambivalência reside em devorar, "consumir", "assimilar" o outro.
O toque, o passeio das mãos, o roçar do corpo; o que se sente à flor da pele...
• ... Isso tudo revela a presença do outro e que nos fazemos presentes na carícia. 
•Mas paradoxalmente é o lugar também da ausência do outro porque não sabemos muito bem o que buscar, não encontramos o objeto, esse alguém que sempre nos escapa.
•Verdadeiramente, não se atinge quem se toca. No fundo o outro é intangível; ao acariciar, a carícia pede sempre mais e o outro sempre escapa.
•Assim, a carícia, na sua dinâmica de presença e ausência, acentua um hiato.
–É onde nasce o desejo.
–O desejo é a experiência da falta.
–Fica-se como que incompleto e o desejo alcança a ordem da busca.

A carícia como promessa
Da carícia nasce também a promessa, porque o corpo do outro se retira, e surge então uma espera (esperar que o outro se me entregue). É a espera de um porvir, daquele que está por vir/chegar (prenseça); é também um futuro (tempo). O outro abre, então o futuro, nasce o tempo. Assim, é intrínseco ao desejo a duração.

A ambivalência presente na carícia
Pela carícia, percebe-se que os gestos carnais são da ordem da sensualidade, da afecção dos sentidos (cheiro, tato). Isso causa em nós uma excitação dos sentidos, uma gratificação (bem-estar) que é como que uma aderência ou impregnação que busca a saciedade. Isto é, a dimensão da sensualidade leva a buscar a saciedade. Na expressão sexual, o desejo é sempre insaciável, mas o gozo e o prazer são transientes e saciáveis. O risco é fixar-se no gozo. Na fixação/aderência, a erótica (do desejo) passa ao erotismo, o toque passa para manipulação (ou masturbação) porque cada um procura o seu gozo; o outro é retido para me satisfazer.

A fenomenologia dos gestos carnais



De que maneira vem o sentido aos gestos carnais?
A sexualidade é um processo, uma inegável dimensão expressiva da pessoa. Tal processo inclui comportamentos, como são as reações aos estímulos da presença (sua carne, seus gestos, palavras; encanto beleza, charme... e por aí vai...). Inclui ainda, condutas, as ações que tem algum objetivo (assegurar a presença, delimitar ou repelir; chamar a atenção, regular a intensidade da carícia, dos gestos... abrir-se ao orgasmo...). Finalmente, expressa também a maneira de ser da pessoa. No âmbito da sexualidade, como nas outras dimensões, todo gesto humano é significante. Mas o sentido não é intencionalidade irredutível; o sentido é revelado pela diferença. Pense por exemplo na diferença entre um toque casual e uma carícia. O sentido assume uma das significâncias do gesto.

O gesto carnal é um ato humano, com intencionalidade, significância e sentido; é uma atitude diante do outro, que expressa a pessoa do agente. Trata-se da existência da pessoa está à flor da pele. Mas os gestos carnais tem uma fraqueza, eles escapam facilmente à vontade; há uma certa comoção diante da carne do outro. A consciência clara tem pouco controle sobre eles. Assim, eles revelam muito sobre a pessoa (o sujeito), a verdade do seu corpo, do seu desejo.
Pessoa, corpo e desejo não estão isolados, na cama, por assim dizer. Mas pertencem, se pertencem, e além, à famílio, grupo, sociedade. O vínculo da carne se desfaz após os gestos carnais, mas permanece a marca do desejo, da busca, da realização... O vínculo passa a transcender o(s) ato(s), e pede o consórcio, o consentimento, a sociedade. Agora, nesta esfera, as marcas de eros, para além de sua significância no ato, apontam ou pedem o sentido. Note-se para a(s) realidade(s) apontadas pela busca do sentido.
As músicas de Lady Gaga são um hino para os marginalizados, na opinião de Helen Lee, especialista em teologia e comunicação da Fordham University, nos EUA.


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O fim do sexo na era de Lady Gaga

Gaga não é nem escandalosa: é o sinal de uma geração que perdeu o valor simbólico do eros. Não há nada de sexy na cantora, mesmo que ela exponha seus metros quadrados de "carne pálida". É o sinal do fracasso da revolução dos costumes.
Veja o texto de Camille Paglia, feminista, em IHU.

Antropologia e Ética

Por Marcos Vinícius L. Cançado

Aristóteles dizia que a virtude está no meio, na justa medida. É a justa medida o elemento para abordarmos os temas: antropologia e ética. Estão unidas justamente porque o autor essencial, o objeto de estudo de ambas é o homem. O que irá mudar nessas ciências não será o objeto de estudos, mas o enfoque que a ele se dá! Como não temos uma resposta que consiga abarcar, no sentido de esgotar, a antropologia e a ética em seus fundamentos, princípios (Arché), faz-se necessário encontrar os justos pontos de cada uma.
Sabemos que a maior grandeza está em entender a nossa própria estrutura. A Antropologia é a ciência que busca a visão global, total do homem. É por causa da busca constante do homem pela verdade, que a antropologia procura a verdade do homem.  Assim temos uma ciência que visa compreender o homem sempre num horizonte comum no qual, o mesmo compreende-se e distingue-se dos outros. Ao indagar sobre a arché do ser humano, o homem já posicionado num horizonte comunitário e mundano, a antropologia desenvolve uma auto-compreensão do homem. Para tal compreensão, a antropologia usará o método dialético, ou seja, visará sobre todos os fenômenos que o homem manifesta-se a partir da sua própria pré-compreensão da totalidade, fazendo com que a pré-compreensão seja margeada pelos fenômenos  do homem e da unidade. Dessa forma, a antropologia conhecerá os mais significativos fenômenos em que o homem se revela. Assim vemos que o homem é: a) um ser radicalmente aberto; b) um ser com o outro no mundo; c) um ser de realidade afetiva.  E a antropologia abrindo o mundo para o homem e o homem para o mundo, numa relação de reciprocidade.

A ética visita as relações humanas para encontrar a dignidade do homem como ser livre capaz de reconhecimento do outro, de ser justo ou solidário etc. Portanto a ética é a ciência da ação humana que procura Conscientizar o homem de seu papel no mundo, humanizando-o. É a ciência da virtude, da pergunta sobre a ação, da moral, da existência, (conviver na ação), do senso moral, da vivência... enfim de tudo que o homem traz movido pela sua própria subjetividade, que o faz refletir sobre quem ele é quando age. É uma espécie de combate que travamos com a experiência, e que optamos, ai reagimos diante do mal , na fundamentação do sentido total da ação. A ética é a tarefa de tornar humano o humano.

Enfim, a Antropologia e a ética são ciências cujo objeto é o homem. Na primeira, a sua essência é totalidade; a segunda, sua ação e o seu thelos. Ambas tecem teorias sobre a construção do objeto de conhecimento, mas ainda temos muito o que descobrir sobre este objeto: o homem.

A crise do masculino

A masculinidade imposta historicamente tem cura. A chave: deixar de lado as etiquetas e criar uma imagem própria na qual compartilhar e sentir não sejam sinônimos de menos virilidade.


Existe uma masculinidade emocional e fisicamente saudável e integradora, necessária para construir um mundo melhor em todos os níveis. Entretanto, no mundo segue predominando uma masculinidade tóxica...


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